Dr. Marcos da Cunha Sales Filho
Clínica Geral · Saúde Metabólica · Manejo de Peso
Orientação de tratamento · Tirzepatida

Recomeçar — e, desta vez, para ficar

o que é a tirzepatida, o que a ciência mostra, e como transformar este ciclo em resultado que se sustenta
Rhayssa Miranda Lopes · 31 anos
Documento emitido em 24/06/2026 · 2ª passagem pela tirzepatida (2,5 mg)

Você já conhece o caminho — o primeiro ciclo mostrou que o seu corpo responde. Agora a missão é outra: fazer o resultado ficar.

No primeiro ciclo, em quatro semanas de tirzepatida 2,5 mg, você saiu de 72 para cerca de 65 kg. Quando a medicação saiu, o apetite voltou — e isso não é fraqueza nem falha sua: é exatamente o que acontece quando a caneta para antes de os novos hábitos estarem firmes. Este documento reúne, em linguagem clara, o que conversamos sobre a tirzepatida: como ela funciona, o que os estudos mostram, onde você está hoje e — o mais importante — como usar esta janela para fixar proteína, treino e constância, de modo que o resultado se sustente sozinho. Guarde-o: vamos voltar a ele.

O que é a tirzepatida

A tirzepatida (nome comercial Mounjaro) imita dois hormônios que o próprio intestino libera quando você come: o GLP-1 e o GIP. Pense neles como mensageiros da saciedade. Quando a comida chega, o intestino avisa o cérebro e o pâncreas: “já temos energia chegando, pode desacelerar a fome e organizar o açúcar no sangue”.

No excesso de peso e na resistência à insulina, essa conversa fica abafada — a fome volta cedo, a vontade não desliga e o corpo armazena com facilidade. A tirzepatida reforça os dois mensageiros ao mesmo tempo. Na prática: comer menos sem sofrer, parar a refeição satisfeita de verdade, perder o “barulho” mental da comida ao longo do dia e uma resposta melhor à insulina — que, no seu caso, é o ponto central dos exames. É por ser um agonista duplo (GLP-1 + GIP) que ela se destaca das canetas de mensageiro único.

Em uma frase

Ela não “corta” a comida à força — devolve ao corpo o sinal de saciedade que o peso e a resistência à insulina foram silenciando. E ainda ajuda a insulina a trabalhar melhor.

O que a ciência mostra — e a parte honesta

A tirzepatida é hoje o medicamento para controle de peso com os melhores resultados já documentados em estudos de grande porte (programa SURMOUNT), com melhora também de açúcar, colesterol, pressão e gordura no fígado.

Por que o estilo de vida não é opcional — e por que isso fala diretamente com você

Um dos estudos (SURMOUNT-4) mostrou que quem para a medicação antes de construir novos hábitos recupera boa parte do peso — foi um pouco o que você sentiu quando o apetite voltou. A leitura certa não é “então não adianta”; é o contrário: a tirzepatida é a alavanca que torna o esforço possível. Enquanto a fome está sob controle, esta é a janela de ouro para fixar comida de verdade, proteína e — no seu caso — a musculação que faltava. É isso que transforma um ciclo de caneta num novo patamar que se mantém sozinho.

Onde você está hoje

Os números vêm da bioimpedância do consultório. Não são para assustar — são o ponto de partida, a fotografia do “antes” que daqui a alguns meses vai ser ótimo reler.

Peso
66,7 kg
já esteve em 72
IMC
26,2
sobrepeso
Gordura corporal
42%
alvo: reduzir
Gordura visceral
6
dentro do bom (< 9)
Massa magra
23%
alvo: aumentar
Idade metabólica
44 anos
real: 31
O ponto que mais importa

Não é tanto o peso — é a composição. Gordura corporal em 42% com massa magra baixa puxa a idade metabólica para 44 anos, treze acima da sua idade real. A boa notícia: idade metabólica é o número que mais rápido reage a músculo, movimento e perda de gordura. E há um sinal precoce a corrigir — a sua insulina vem subindo (de 11,4 para 13,5): emagrecer e ganhar músculo é o que devolve a sensibilidade à insulina. É exatamente o que vamos adorar ver mudar nos próximos exames.

Como o tratamento funciona na prática

A aplicação é uma vez por semana, sempre no mesmo dia, com caneta subcutânea na barriga — simples, rápida e quase indolor. Recomeçamos pela dose mais baixa, de propósito: as primeiras semanas são para o corpo reentrar no ritmo com tranquilidade.

2,5 mg
O recomeço. Dose semanal de adaptação. O seu corpo já conhece a medicação do primeiro ciclo — tende a tolerar bem.
Poucas doses
No seu ritmo. Pela boa resposta que você já teve, a expectativa é de poucas doses — a balança, a fome e os exames guiam cada passo, sempre decidido junto com você.
Convivendo com os efeitos

Os efeitos mais comuns são digestivos no começo: enjoo, empachamento, intestino preso ou solto. Quase sempre passam em poucos dias e respondem ao básico — porções menores, mastigar devagar, evitar frituras e gordura pesada no dia da aplicação, bastante água (~2,5 L) e fibras. Sintomas que não são “de adaptação” e pedem contato imediato: vômitos persistentes, dor abdominal forte e contínua. Não espere a próxima dose — estou a uma mensagem de distância.

Para você, Rhayssa — o que faz a diferença agora

O apetite que voltou tem solução

O primeiro ciclo provou que funciona; o que faltou foi tempo de hábito. Desta vez, enquanto a fome está controlada, a gente fixa o que sustenta o resultado: proteína em toda refeição e treino de força. Quando isso vira rotina, o peso para de depender só da caneta.

Proteína e músculo são prioridade

Com a fome baixa, o risco é comer pouco e perder músculo — justamente o que você precisa ganhar. Por isso: ~130 g de proteína por dia, um pouco em cada refeição, começando no café. Músculo preservado é o que mantém o metabolismo alto e derruba aquela idade metabólica.

Musculação: a peça que faltava

Você corre 3× por semana — ótimo, isso fica. Mas a musculação, que você começou algumas vezes e nunca manteve, é a virada de chave agora: é ela que constrói massa magra, firma o corpo e segura o resultado quando a medicação sair. Comece leve, foco na constância — 3× por semana.

A corrida e a canelite

Por causa da fratura/haste de 2018, nos dias de dor de canela troque a corrida por baixo impacto (bike, elíptico, natação) e não force. Capriche no aquecimento e no fortalecimento de panturrilha e tibial. Dor nova ou que não passa, me chame que a gente ajusta.

Água e a tirzepatida

Manter ~2,5 L de água por dia ajuda a saciedade, o intestino e reduz o enjoo e a prisão de ventre dos primeiros dias. Vale priorizar ao longo do dia, não tudo de uma vez.

Os pilares

Proteína em toda refeição (~130 g) Água — ~2,5 L/dia Musculação 3×/semana Corrida 3×/semana Comida de verdade, porção definida Registro no app

Nenhum desses pilares é heroico — e cada um conversa com os outros: a água ajuda o intestino, o músculo melhora a insulina, a proteína da manhã sustenta o treino, o treino derruba a idade metabólica. O corpo é um sistema; nós só vamos alimentar o ciclo certo — e a tirzepatida segura a fome enquanto esse ciclo se firma.

Os próximos passos

1
Aplicar a tirzepatida 2,5 mg, semanal, sempre no mesmo dia, subcutânea na barriga.
2
Proteína em toda refeição + ~2,5 L de água — isso começa já, todo dia.
3
Iniciar a musculação (a peça que faltava) e manter a corrida, respeitando a canelite.
4
Registrar comida, água, treino e peso no app Diário da Vida — é ele que mostra a constância.
5
Reavaliar em 8–12 semanas — insulina, HOMA-IR e bioimpedância, para ver a sensibilidade à insulina e a composição corporal melhorando.
6
Na próxima coleta — incluir amilase e lipase (base de segurança) e otimizar a vitamina D.
O primeiro ciclo provou que dá certo.
O segundo é sobre transformar o que funcionou em hábito — proteína, treino, constância.
A medicação abre a janela; quem fixa o resultado é a rotina.
O corpo escuta a repetição. E, com o tempo, responde para ficar.